ORELHA:
Nós, leitores e leitoras deste livro, estamos sendo presenteados com uma rara combinação de ingredientes reveladores de uma qualificada e diferenciada 'ação educativa' formulada, praticada e refletida dentro de uma instituição pública de ensino superior de nosso estado, a UERGS. Destaco alguns desses elementos e deixo em aberto para que outros tantos sejam apropriados e socializados por outras leituras dessa qualificada obra coletiva.
No titulo está, apropriadamente, anunciado o clássico tema da formação de professores, incluindo uma novidade que é do seu entrelaçamento com o ideário da educação popular por meio da memória e da história, contida nos dez capítulos que representam densos testemunhos dos docentes-pesquisadores do curso de Pedagogia da UERGS.
Ao longo dos capítulos, incluindo também a apresentação, se constata uma inquietação, de parte de seus diversos autores e autoras, que pode ser entendida como uma fonte inspiradora e diretamente conectada com as razões 'fundantes' da criação da UERGS aplicadas no concreto institucional do curso de Pedagogia, com a turma dos '150', nestes 4 e meio últimos anos. Essa inquietação não fica prisioneira de um 'denuncismo' gratuito sobre problemas e desafios da educação, tanto em seus aspectos estruturais, culturais e sociais, mas, com ganas, se 'encarna' nos mais diversos desdobramentos de sala de aula como a avaliação do conhecimento, a relação 'orgânica' entre alunos e professores, os conteúdos e temas desenvolvidos, a produção textual e a pesquisa.
A educação popular em nosso país tem sido objeto de inúmeras abordagens ao longo dos últimos cinqüenta anos. Um dos pesquisadores que tem contribuído com essa produção é Carlos Rodrigues Brandão e, em capitulo do seu livro Em Campo Aberto (1995), faz uma espécie de balanço dessa área no contexto da sociedade brasileira. Ele enfatiza como a educação popular foi se modificando – sem perder seus princípios instituintes de compreensão e valorização dos saberes das classes populares – ao deslocar-se da perspectiva emancipatória, centrada em foco de metas únicas e abrangentes, para um ampliado conjunto de ações, em diversas práticas educativas, dentro e fora do espaço escolar do campo institucional. Neste livro, estamos diante de uma excelente evidência teórico-prática dessa mudança ao enfatizar a riqueza dos processos educativos presentes numa universidade pública. O visível e institucional se mostram nutridos pelas experiências e pelos tempos de nossa recente história brasileira!
Saúdo essa produção feita por dez pesquisadores e docentes, homens e mulheres, todos egressos de cursos feitos em universidades de nosso estado, concentrados na nossa capital e predominantemente instituições públicas. Essa é uma marca importante, pois revela um conjunto de profissionais de recente titulação ou ainda em processo de formação, gente de uma geração que já é resultado de um consolidado sistema de pós-graduação em nosso país e que a própria UERGS sinaliza para continuidades também aos seus alunos, sujeitos que foram dessa turma como fonte inspiradora aos escritos dos seus professores.
Os diversos temas deste livro estão sintetizados na apresentação do livro ou se pode ter uma visão abrangente ao lermos os nomes dos diversos capítulos. Remeto o leitor e a leitora para que faça uma compreensiva apropriação das diversas formas de se 'sentir' a inquietação que anunciava no início de minhas palavras. Parabenizo entusiasticamente todos autores e autoras pela forma parceira como escreveram o livro e por revelarem que a 'tomada de consciência' do mundo se faz também numa produção textual, anunciadora da palavra de cada um, alunos e professores, ambos profundamente 'educadores de si e dos outros'.
Entre várias reflexões ofertadas aos leitores, menciono as palavras de um psicólogo sobre suas experiências em aula, que são tão 'pedagógicas' quanto a devolução de textos feitas aos alunos para serem reelaborados por meio de uma avaliação profundamente interativa. Tratar de criança e infãncia, educação de jovens e adultos, informática e corporeidade são todas partes integrantes da nossa condição humana e, sem fragmentar o sonho, portadoras do desafio a que se propõe a construção do conhecimento, como o possível de todos nós.
Vale ainda destacar o encontro que esta obra faz entre o local e o universal, entre a autoria de cada um e os apoios em outros pensadores, entre a ação e a reflexâo. Essa dinâmica interação retoma os primeiros escritos a respeito da educação popular em nosso pais!
Esta obra produz esperança.
Semelhanças com Freire são pura intencionalidade.
Nilton Bueno Fischer, verão de 2007.