
ORELHA:
Em todas as cidades existem histórias guardadas na memória do povo. Em geral engraçadas, picarescas, mas às vezes também trágicas e edificantes. Algumas extravasam os limites municipais e são contadas sem que se saiba onde nasceram. As hilariantes são chamadas no Rio Grande do Sul de “causos” e já possuem uma vasta bibliografia. Entre os livros mais conhecidos, podemos mencionar os “Casos de Romualdo” de João Simões Lopes Neto e “Rapa de Tacho” de Aparício Silva Rillo, colecionados do imaginário popular e recriados com muita vivência e talento.
Assim, quando minhas alunas da Oficina de Criação Literária, que ministrei na URCAMP- Universidade da Região da Campanha, campus de Caçapava do Sul, escolheram este tema, tive certeza que estavam no caminho certo. Mas que lhes custaria muito trabalho garimpar essas narrativas da tradição oral, muitas vezes fragmentárias, filtrar as impurezas, e oferecer ao leitor a história e suas circunstâncias. Ou seja, o fato que sobreviveu e a recriação do ambiente físico e psicológico da cidade e de seus protagonistas.
Por exemplo, a queda de um avião em Caçapava, no ano de 1937, foi documentada com fotografias e até com notícias em jornais de Porto Alegre. Mas descobrir que o tenente-aviador estava apaixonado por uma caçapavana e por isso roubara o monomotor para visitá-la, foi fruto de uma pesquisa cuidadosa com os raros contemporâneos do fato. Si no é vero, é bene trovado. É claro que o nome da mulher amada, que depois se tornou uma matriarca muito querida na cidade, foi substituído por um pseudônimo. Esse cuidado se justifica para não criar polêmicas, nem ferir suscetibilidades de descendentes dos personagens reais, embora jamais estas histórias tenham buscado ridicularizar ninguém. E se por acaso se aproximaram disso, foi sempre inspiradas na famosa frase de Napoleão: entre o sublime e o ridículo não há mais que um passo.
Alcy Cheuiche