ORELHA:
Impregnado de ensinamentos práticos, filosóficos e morais, em estilo sóbrio e incisivo, eis que surge da lavra festejada de Francisco Pereira Rodrigues, o romance da gesta rio-grandense de 1923, na região situada à margem direita do Jacuí, nas vizinhanças do município de São Jerônimo.
Graças à erudição e ao poder criativo do autor, a obra, inobstante dotada de cunho histórico, em nenhum momento se deixa repassar pelo ranço nostálgico e entediante das descrições episódicas. O enredo vibrante e habilmente urdido torna-lhe a leitura cativante. Os protagonistas, muitos deles conhecidos pela ativa participação naquele movimento armado, são apresentados através de sua personalidade moral e afetiva, evidenciando-se o seu caráter pelos respectivos atos e palavras.
Afinando com o entrecho psicológico do romance, sobressai a figura de João Fabrício, jovem santo-amarense que, impelido por arraigados ideais libertários, ingressa nas hostes rebeldes do General Zeca Netto.
A partir daí, com fidelidade, exação e clareza, outorgando ao relato inestimável valor documental, são retratados os sucessos bélicos, os momentos de trégua e de lazer nos acampamentos.
Digna de registro é a tormentosa experiência vivenciada por João Fabrício ao constatar a selvageria desenfreada de alguns componentes da coluna, culminando com a prática de sevícias, estupros e da ignominiosa degola. As iníquas atrocidades verificadas pelo moço de Santo Amaro dissiparam, em sua consciência de homem rude mas crente da fidalguia da raça, as derradeiras aspirações de liberdade, frustrando seus mais elevados instintos cívicos.
Na exposição circunstanciada das cenas e acontecimentos, o autor, favorecido por um temperamento artístico privilegiado, onde não faltam toques de rara beleza estética, empresta ao contexto as cores vivas de um realismo emocionante.
MARTINS LIVREIRO - EDITOR